
Realmente, que constante mutação. Quase um surto cósmico. Um pulo quilométrico por milisegundos. Como se assistir Jetsons na infância fosse algo surreal, hoje vemos que a tal ficção científica não mais restringi-se a livros, mentes e filmes viajões, mas sim a uma verdade que silenciosamente - como um parasita – habita nosso cotidiano deixando-nos dependentes de suas facilidades e mordomias sem que se quer realizemos do significado de sua existência.
Sinceramente, lembro-me de no primeiro grau arrumar minha mochila para o colégio sem nunca esquecer meu Walkman(em que dentro eu guardava uma fita K7 do Pink Floyd que havia gravado dos discos de meu pai), uma agenda eletrônica(o “As” da ciência na época), uma agenda convencional(para anotar datas de provas), um cartão telefônico para orelhão, dinheiro para o lanche do colégio, um canivete suiço e -caso houvesse algo especial no colégio- pedia emprestado para minha mãe a única máquina fotográfica da família. Isso sem contar com a única câmera de vídeo que conhecia, pertencente a meu avô e que via só no dia 25 de dezembro. Repare que, comparado ao que ouvia de meus pais que foram ter a primeira tv da casa aos 10 anos, e a meus avós que tinham o rádio como total centro de entretenimento da casa - junto de livros e discos de vinil 16 rotações rodados na velha vitrola - eu me sentia representante de uma Era moderna. Mal eu sabia que muito mais ainda veria e principalmente: que desejaria profundamente ter nascido em uma época anterior.
Nos dias de hoje, os adolescentes carregam no bolso uma “poióca”. Um dito cujo pedaço de plástico de 2cm por 2 cm, que cumpre todas as funcões de minha antiga mochila de primeiro grau, além de 500 mil inimagináveis mais. O antigo walkman com espaço para uma fita k7 que comporta 7 músicas por lado perdeu para o um Gigabyte de espaço do novo aparelho, que guarda 200 músicas em arquivo MP3. A agenda eletrônica já está petrificando, pois o novo aparelho além de armazenar números telefônicos, possui tecla de atalho para chamar diretamente a pessoa desejada. A agenda convencional humilha-se diante o novo calendário com subdivisões para os diferentes tipos de compromissos e agendamentos. O dinheiro do lanche – pelo menos nos EUA – semana a semana é menos usado, perdendo espaço para os cartões de débito. Já o cartão telefonico é: ou objeto de antiquário, ou então pertencente a pessoas sem condições de comprar um celular, e que tem vergonha de sua existência em suas carteiras junto aos “vale transporte”. O canivete suíço não perde lugar por representante de categoria, já que o tal novo objeto vem com lanterna (também representante da seção Camping). A antiga máquina com filme de rolo dependente de posterior revelação perdeu lugar para Gigabytes, reprodução mais espontânea que Nescau e cabos com ligaçào USB. Já o antigo vídeo natalino gravado em vhs por uma câmera do tamanho de uma caixa de sapato, foi trocado por Gigas cotidianos de besteiras eternizadas por Megapixels inconsequentes e capitalistas.
Óbvio que achamos nada a ver não se enquandrar aos novos padrões, e que radicalismo é sempre uma bobagem. Assim como em outras gerações, jamais imaginariam que as pessoas deixariam de ler, de esperar ansiosos por revelações fotográficas, entre tantas outras coisas. Pois é. Os rituais e as tradições valem a pena, e é deles que vem toda a graça. Portanto não pense que tudo é bobagem e valorize mais cada segundo da sua vida!
Apesar de não amar, não sou contra a tecnologia. Julgo-a necessária e tento viver com sua existência. Mas realmente me preocupa o rumo que as coisas estão tomando e toda essa evolução desenfreada. Até tomei um susto dia desses, quando deparei-me com um porta retrato eletrônico que memoriza fotos e as vai passando automaticamente. Óbvio que são charmosos e tentadores os caprichos da modernidade, o problema é: onde isso vai chegar.
Depois de muito pensar a respeito, cheguei a uma conclusão. Mais uma vez o problema é dinheiro. Ou tempo. Ou os dois, ja que são irmãos inseparáveis, sendo um responsável pelo andamento do outro fazendo jus à sentença: “Tempo é dinheiro”. Seja um, seja o outro, a verdade é que estamos simplificando nossa vida, nosso cotidiano, nossos atos e tudo mais. Tudo para ter mais tempo, economizar tempo, ganhar tempo. Ou seria: tudo para ter mais dinheiro, economizar dinheiro e ganhar mais dinheiro. Tanto faz. No final chega a ser engraçado, pois acaba-se gastando mais para acompanhar Apple, Sony, Microsoft e cia limitada. Mas idiotice seria culpar empresas, pois por incrível que pareça eles não tem culpa nenhuma. A culpa é nossa e deste desejo consumista intrincado em nossa cultura.
Não sou socialista, também não sou capitalista, sou realista apegado à razão. E a meu ver, as pessoas andam tão ocupadas tentando arranjar tempo, simplificações e até mesmo dinheiro, que esquecem de ver o porque das coisas. Tudo é ritual. Assim como o chimarrão. Da fervura da água até ir a uma roda de amigos para confraternizar. Os rituais é que dão a graça. Por isso me assusta essa onda de downloads. Daqui a pouco até os livros estarão condenados, pois as pessoas irão fazer downloads da internet, assim como já o fazem. Inclusive, inventaram um aparelho eletrônico que armazena de 20 a 30 livros e folheia as páginas sozinho. Irritante é quando as pessoas olham isso e dizem: Que legal! Legal nada, que ridículo. Se seguirem assim no futuro nem sairemos mais de casa, pois todas compras serão on line com entrega a domicílio, shows e jogos de futebol via internet, discos, filmes e livros por download, atividades sociais via vídeo conferência, aulas por web cam, e por aí vai. Até chegar no chimarrão de caixinha no estilo “cup noddles”para ser feito de maneira instantânea no microondas, e o sexo sem preliminar, só consumação de ato para não haver perda de tempo. Tudo para não perder tempo. De que adianta tentar salvar tanto tempo, se não sabemos aproveitá-lo direito. Pois é, são tristes as previsões. Eu até seria mais positivo se as pessoas tivessem consciência do assassinato cultural que nossa geração está cometendo, mas infelizmente elas não tem. Pois não tiveram “tempo” pra pensar a respeito.
Felipe Rotta
4 comments:
Simplesmente, apoiado.
Abraço.
Os tempos podem até mudar, mas depois de ler (e concordar com cada vírgula) vi que tu continua o mesmo... =] D+!
Falta pouco eim?! Saudade de ti!
Beijãooo
Bah...sem palavras...
Concordo plenamente!
Bjus!
Incrível como conheci pouco esse teu lado na escola!! Interessante a maneira como te posicionas... são belas críticas a um sistema difícil de mudar. Mas podes acreditar: não está perdido nele!
Beijos...
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